Artigo: Misericórdia

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* Por Dom José Alberto Moura, Arcebispo de Montes Claros (MG)


A misericórdia faz milagres, tanto no dá-la quanto no recebê-la. É só experimentá-lo para se  perceber esse seu efeito. Promove a paz na consciência e na convivência social. Tudo muda. As relações familiares, comunitárias e sociais mudam o foco. A competição desvairada se esvazia. As lutas acirradas perdem a força. O armistício acontece. Tudo se torna compreensão, solidariedade, justiça e harmonia. O diálogo se efetiva. O respeito ao outro se torna normal. Dá-se vez. Perdoa-se. As relações se consolidam com a mútua aceitação. O pecado é perdoado. Inicia-se a caminhada com as mãos dadas. Um ajuda o outro.


Se Deus não fosse misericordioso não existiríamos. Ele nos ama, apesar de nossos desvarios. É o Pai do filho pródigo. Só quer nosso bem. Chama-nos a cada instante para participarmos de seu convívio amoroso. Indica-nos o caminho de sentido. Robustece nosso ser com sua graça. Nossa conversão é aclamada por Ele, que  busca sempre a ovelha perdida. Seu olhar penetrante mostra que não precisamos ter medo de nos aproximarmos dele. Seus braços estão sempre abertos para nos amparar. Qual mãe terna  afaga-nos com seu carinho e nos dá segurança quando nos deixamos entregar  a seus amplexos, abandonando-nos completamente sob sua proteção.


Quem experimenta a misericórdia divina é profundamente devedor da mesma ao semelhante. Para isso, lembra-nos a oração do Pai nosso: “Perdoai-nos como também nós perdoamos”. A misericórdia dada faz-nos abrir o coração (córdia) para quem está na miséria (mísera) de seu erro e de suas necessidades. Os termos “não levo desaforo para casa” não têm cabimento para quem contempla a situação miserável do outro. Nós também não erramos? Por que não abrir-nos  para darmos a mão a quem caiu? Se todos cultivássemos e colocássemos em prática a misericórdia, teríamos mais compaixão para com as pessoas caídas por suas miserabilidades na vida. Pensaríamos mais nos outros. Trabalharíamos para a inclusão dos mais frágeis na vida comunitária e social, dignas de quem é ser humano e irmão.


A fome seria superada. A política se tornaria um real serviço ao bem comum. Teríamos mais justiça. Superaríamos as discriminações. Respeitaríamos as religiosidades. Desarmaríamos os ânimos exaltados e destruiríamos as armas esmagadoras em todos os níveis e concepções.


A ressurreição de Jesus mostra a superação de todo tipo de morte. Nele encontramos a fonte da misericórdia. Já antes, da cruz pediu ao Pai pelos que o crucificaram. Agora, com sua vida nova em nós, somos aptos para caminhar com a altivez de quem é capaz de perdoar e ajudar até os inimigos, pois, vivemos para amar e levar a vida do Ressuscitado para todos. A juventude, renascida com Cristo, é capaz de tornar o mundo novo, pois, a maior vitalidade rejuvenescedora está na vida em Cristo, que venceu a morte! A juventude, ouvindo o Senhor ressurreto, pode, com o apóstolo Tomé, manifestar sua confiança: “Não sejas incrédulo, mas fiel”. De fato, a fé faz a pessoa espalhar para todos a misericórdia de Deus. A fé entusiasma quem experimenta caminhar com Cristo. Faz a pessoa manifestar a todos que somos irmãos e é preciso amarmos e perdoarmos uns aos outros.