Artigo: O Ano da Fé

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* Por Dom Murilo S. R. Krieger, scj – Arcebispo de São Salvador da Bahia, Primaz do Brasil


Quinta-feira passada, dia 11 de outubro, em Roma, o Papa Bento XVI abriu o Ano da Fé. Desde então, ressoa na Igreja um insistente convite para todos os fiéis: o de buscarmos uma autêntica conversão ao Senhor, único Salvador do mundo. As razões para a instituição desse Ano foram basicamente duas: celebrar o cinquentenário da abertura do Concílio Vaticano II (1962-1965), uma “grande graça de que se beneficiou a Igreja no século XX”, e comemorar os vinte anos da publicação do Catecismo da Igreja Católica, aprovado com a finalidade de “ilustrar a todos os fiéis a força e a beleza da fé”.

Ao longo deste Ano da Fé, que se encerrará no dia 24 de novembro do próximo ano, seremos convidados (1º) a intensificar uma ampla reflexão sobre a fé, para ajudar todos os fiéis em Cristo a se renovarem sua adesão ao Evangelho; (2º) a confessar a fé no Senhor Ressuscitado, em nossas catedrais e nas igrejas do mundo inteiro, em nossas casas e no meio de nossas famílias, para que cada um sinta fortemente a exigência de conhecer melhor e de transmitir às gerações futuras a fé recebida; e (3º) a descobrir novamente os conteúdos da fé professada, celebrada, vivida e rezada.

Bento XVI nos lembra que, nos primeiros séculos do cristianismo, os cristãos eram obrigados a decorar o Credo, rezado diariamente por todos, para não se esquecerem dos compromissos assumidos no dia do Batismo; renovavam, assim, continuamente, a decisão de viver sempre com o Senhor. Mostravam desta forma que a fé não é somente um ato particular, interior, mas supõe um testemunho e um compromisso público: “Não podemos aceitar que o sal se torne insípido e a luz fique escondida. Também o homem contemporâneo pode sentir de novo a necessidade de ir como a samaritana ao poço, para ouvir Jesus que convida a nele crer e a beber em sua fonte, de onde jorra água viva”.

Nossa fé tem como fundamento o Senhor Ressuscitado. À medida que vivermos por Cristo, com Cristo e em Cristo compreenderemos as razões pelas quais acreditamos, e teremos condições de testemunhá-lo àqueles que o procuram de mil maneiras, mesmo que não conheçam seu nome e seu rosto. Essas pessoas perceberão que não anunciamos ou seguimos uma teoria, mas que encontramos em nossa vida uma Pessoa viva, que vive na Igreja e ilumina nossa própria existência. Por isso mesmo, ao longo deste Ano da Fé, deveremos manter o olhar fixo em Jesus Cristo, “autor e consumador da fé” (Hb 12,2). Ele é a resposta aos corações inquietos. Nele tudo encontra plena realização: as alegrias e os sofrimentos, “o perdão diante da ofensa recebida e a vitória da vida sobre o vazio da morte”. Ao encontrá-lo, muitos dirão, com Santo Agostinho: “Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu te amei! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora. Estavas comigo, mas eu não estava contigo!”

Um dia, depois de terem ouvido uma pregação de Jesus, na qual o Mestre insistia na necessidade de perdoar sempre, os apóstolos lhe pediram: “Aumenta a nossa fé!” (Lc 17,5). Eles haviam percebido que somente na fé, dom de Deus, podiam estabelecer uma relação pessoal com ele e colocar em prática seus ensinamentos. Com isso aprendemos que evangelizar é levar alguém ao encontro com Jesus Cristo, que nos transforma, nos reúne e nos introduz em uma vida nova. Aprendemos, também, que a fé não é somente uma doutrina, uma sabedoria, um conjunto de regras morais ou uma tradição: ela é um encontro real, uma relação com Jesus Cristo.

O Ano da Fé é um convite a nos tornarmos sinais vivos da presença do Ressuscitado no mundo. Ilumine-nos, ao longo desse Ano, as palavras do apóstolo Pedro: “Sem terdes visto o Senhor, vós o amais. Sem que agora o estejais vendo, credes nele. Isso será para vós fonte de alegria inefável e gloriosa, pois obtereis aquilo em que acreditais: a vossa salvação” (1 Pe 1,8-9). Animemo-nos, pois o Senhor Jesus derrotou o mal e a morte, venceu o poder do maligno e nos dá a graça de sermos vitoriosos.