As Diretrizes da Igreja no Brasil (II)

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* Por Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues, Arcebispo de Sorocaba – SP

Igreja, casa da iniciação cristã (Já)

Na última reflexão que apresentamos nessa coluna a propósito da primeira urgência indicada nas Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, terminamos com a pergunta: mas quem está disposto a ir, a sair de si para entrar com amor no universo do outro? O discípulo de Jesus, na medida em que se identifica com Ele, entra na dinâmica do “ser-para-o-outro”, espelhando na própria existência o processo da Vida Trinitária. Ser missionário é partir rumo àquele que está longe, é ampliar o leque do “ser-para”, para além do círculo de sua pequena comunidade. O que só pode ser realizado por quem aprendeu a sair de si e a viver focado no outro com quem partilha o cotidiano da vida, Mas voltemos à pergunta: quem está disposto a entrar na aventura missionária? São Paulo, na Epístola aos Romanos, a propósito da pregação do evangelho a todos, levanta a questão; “Todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo.

Como, porém, invocarão aquele em quem não creram? E como crerão naquele de quem nada ouviram? E como ouvirão, se não há quem pregue? E como pregarão se não forem enviados? “ (Rom 10.13-15). As perguntas de Paulo nos conduzem ao texto da vocação de Isaias, que, purificado por Deus, escuta-o perguntar-lhe: “Quem enviarei? Quem irá de nossa parte” e responde: “aqui estou, envia-me.”( Cf Is 6, 1-9). Aqui entra a segunda urgência das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil: “Igreja, casa da iniciação à vida cristã”. Isaias só se tornou profeta depois de ter experimentado Deus e ser por ele purificado. Se fizermos em nossas missas dominicais o convite para os fieis participarem de forma permanente do empenho missionário da paróquia, quantos católicos se apresentarão com sincera disposição para a missão? A pergunta de Paulo VI continua atual  “O que é que é feito, em nossos dias, daquela energia escondida da Boa Nova, suscetível de impressionar profundamente a consciência dos homens?”(EN). A partir de Aparecida, as Diretrizes apontam-nos o caminho para despertar na vida de nossas comunidades a energia da Boa Nova: o encontro com Cristo pela retomada do querigma, como fio condutor de todo o processo de formação do discípulo missionário. Isaias, como todos os profetas, saiu em missão porque viu o Senhor Deus e por Ele foi purificado. Só quem recebeu a graça do encontro com Cristo, dom do Pai pelo Espírito Santo, e vive a experiência de estar com Cristo, pode verdadeiramente se tornar missionário. O Coração das Diretrizes está no capítulo primeiro: PARTIR DE CRISTO. O encontro e o aprofundamento na vivência do mistério de Cristo postulam uma profunda iniciação à vida cristã. Esta iniciação, para a maioria de nossos fieis, deve ser de estilo catecumenal – catecumenato pós-batismal – e mistagógico. Sem esta experiência purificadora do estar com Cristo e do cultivo de sua amizade não há como nos tornarmos seus missionários. A iniciação à vida Cristã deve responder ao que nos propõem as Diretrizes, sob a forma de perguntas: “O que significa acolhê-lo, segui-lo e anunciá-lo? O que há em Jesus Cristo que desperta nosso fascínio, faz arder nosso coração (cf. Lc 24,32), leva-nos a tudo deixar (cf. Lc 5,8-11) e, mesmo diante das nossas limitações e vicissitudes, afirmar um incondicional amor a Ele (cf. Jo 21,9-17)? A paixão por Jesus Cristo leva ao arrependimento, à contrição (cf. Lc 2447; At 2,36ss)  e à verdadeira conversão pessoal e pastoral. Por isso, devemos sempre nos perguntar: estamos convencidos de que Jesus Cristo é o Caminho, a Verdade e a Vida? O que significa para nós, hoje, o Reino de Deus por Ele instaurado e comunicado?” (DGAE 4). E mais adiante: “A admiração pela pessoa de Jesus, seu chamado e seu olhar de amor despertam uma resposta consciente e livre desde o mais íntimo do coração do discípulo”(n.38) A iniciação à vida cristã, que tem sua fonte permanente na palavra de Deus, intensifica a vida sacramental e suscita a vida de comunhão fraterna. O livro dos Atos assim descreve as primeiras comunidades:

“Eles eram perseverantes em ouvir o ensinamento dos apóstolos, na comunhão fraterna, na fração do pão e nas orações. Apossava-se de todos o temor, e pelos apóstolos realizavam-se numerosos prodígios e sinais. Todos os que abraçavam a fé viviam unidos e possuíam tudo em comum;  vendiam suas propriedades e seus bens e repartiam o dinheiro entre todos, conforme a necessidade de cada um.  Perseverantes e bem unidos, freqüentavam diariamente o templo, partiam o pão pelas casas e tomavam a refeição com alegria e simplicidade de coração. 47 Louvavam a Deus e eram estimados por todo o povo. E,cada dia, o Senhor acrescentava a seu número mais pessoas que eram salvas.”(At 2,42-47). O testemunho da comunidade atraia os de fora. A quarta urgência é exatamente esta: A Igreja: comunidade de comunidades. (continua)