As Diretrizes da Igreja no Brasil (III)

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* Por Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues, Arcebispo de Sorocaba – SP

A Igreja: comunidade de comunidades

Damos continuidade hoje à reflexão sobre as Diretrizes da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil. A palavra de Deus, assimilada e vivida na Iniciação à vida cristã (segunda urgência), gera a comunidade. Donde a urgência: A Igreja: comunidade de comunidades.

“O discípulo missionário de Jesus Cristo faz parte do Povo de Deus (cf. 1Pd 2,9-10; LG, n. 9) e necessariamente vive sua fé em comunidade. ‘A dimensão comunitária é intrínseca ao mistério e à realidade da Igreja, que deve refletir a Santíssima Trindade’. Sem vida em comunidade, não há como efetivamente viver a proposta cristã, isto é, o Reino de Deus. A comunidade acolhe, forma e transforma, envia em missão, restaura, celebra, adverte e sustenta.” (DGAE 56). Em Atos 4,32-35, a experiência de vida comunitária dos primeiros cristãos é retomada: “A multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava suas as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum. Com grande poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e sobre todos eles multiplicava-se a graça de Deus. Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas as vendiam, traziam o dinheiro e o depositavam aos pés dos apóstolos. Depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um”. As Diretrizes assim descrevem as características da comunidade: “Comunidade implica necessariamente convívio, vínculos profundos, afetividade, interesses comuns, estabilidade e solidariedade nos sonhos, nas alegrias e nas dores. Um dos maiores desafios consiste em iluminar, com a Boa Nova, as experiências nos ambientes marcados por aguda urbanização, para os quais vizinhança geográfica não significa necessariamente convívio, afinidade e solidariedade. Outro grande desafio encontra-se nos ambientes virtuais, onde a rapidez da comunicação e a liberdade em relação às distâncias geográficas tornam-se grandes atrativos. Estas situações configuram desafios para a ação evangelizadora, na medida em que nada substitui o contato pessoal”.(n. 59). E no número 72 mostra como deve se estruturar de forma nova a paróquia: “O caminho para que a paróquia se torne verdadeiramente uma comunidade de comunidades é inevitável, desafiando a criatividade, o respeito mútuo, a sensibilidade para o momento histórico e a capacidade de agir com rapidez. Mesmo consciente de que processos humanos e transformações de mentalidade não acontecem de uma hora para outra, a Igreja no Brasil se compromete em acelerar ainda mais o processo de animação e fortalecimento de efetivas comunidades, que buscam intensificar a vida cristã por meio de autêntico compromisso eclesial. A setorização da paróquia pode favorecer o nascimento de comunidades, pois valoriza os vínculos humanos e sociais. Assim, a Igreja se faz presente nas diversas realidades, vai ao encontro dos afastados, promove novas lideranças e a iniciação à vida cristã acontece no ambiente em que as pessoas vivem”.

A Iniciação à vida cristã introduz o fiel na vida da Igreja e os laços invisíveis do Espírito, no qual estamos profundamente ligados aos fieis do mundo inteiro – inclusive aos que se foram dessa existência -, se mostram, tornam-se tocáveis, na família e na comunidade menor, onde as pessoas se conhecem pelo nome e se amam de forma concreta, conforme a descrição dos Atos dos Apóstolos. Em uma cultura individualista este é o grande desafio: criar comunidades pequenas onde a caridade – o amor de Deus – seja intensamente vivida, na oração e na partilha, tendo na Palavra e na Eucaristia, celebradas na comunidade maior, sua fonte de vida permanente. A comunidade menor deve ser o lugar da catequese permanente –“eram perseverantes na doutrina dos apóstolos” -, da oração, da partilha das experiências e dos bens e do dinamismo missionário. Precisamente por ser a cultura atual fortemente marcada pelo individualismo consumista, emerge forte o anseio por uma experiência de amor que seja fonte de vínculos afetivos mais profundos e que possa se traduzir em solidariedade com os descartados pela sociedade do bem estar material. As muitas formas de vida comunitária, nascidas dos movimentos e a multiplicação de pequenas igrejas evangélicas, revelam a sede de amparo e proteção, sobretudo da parte dos mais pobres ou dos que mais sofrem.

A Igreja está a indicar-nos esse caminho: pequenas comunidades vivas e missionárias dentro da grande comunidade paroquial. Será que nossas paróquias se deixarão transformar, passando de centros de atendimento sacramental a centros geradores de comunidades vivas e missionárias? Eis o grande desafio que está a nos exigir uma profunda conversão pastoral, fruto daquela conversão mais profunda que brota do encontro sempre renovado com Cristo. A alegria de ser em comunidade é a expressão da alegria de ser e viver em Cristo. Comunidades cristãs verdadeiras se tornam fonte de renovação da sociedade. Donde a quinta urgência: Igreja a serviço da vida plena para todos. (continua)