As Diretrizes da Igreja no Brasil (IV)

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* Por Dom Eduardo Benes de Sales Rodrigues,

Arcebispo de Sorocaba – SP

Igreja a serviço da vida plena para todos

A quinta urgência se articula inseparavelmente com a primeira: “Igreja em estado permanente de missão”. A primeira urgência explicita a essência da tarefa conferida por Cristo à Igreja: o anúncio explícito da Boa Nova. Este anúncio deve ser acompanhado dos milagres da solidariedade que o mistério da encarnação nos revela. A missão essencial de Jesus foi anunciar o Reino de Deus. Este foi seu querigma, mas pregava e ensinava como quem tinha autoridade: “Maravilhavam-se de sua doutrina, porque os ensinava como quem tem autoridade e não como os escriba”(Mc 1,21-22). A autoridade lhe vinha da perfeita coincidência entre seu ensinamento e sua vida. Sua palavra mesma ecoava, com a força do Espírito, no coração dos ouvintes. Os muitos sinais – milagres -, expressão de seu extremado amor pelas pessoas em sofrimento, davam credibilidade à sua pregação. Os milagres de Jesus não podem ser interpretados em sentido meramente apologético como se fossem, da parte de Jesus, uma demonstração de força para dobrar a possível resistência da razão orgulhosa ao seu ensinamento.

Os milagres são sinais do amor infinito do Pai pela humanidade e, como tal, toca os corações das pessoas e abrem-nas para a escuta da palavra e para os ensinamentos de Jesus. O anúncio do Reino leva à conversão e, na medida em que as pessoas se deixam modelar pelo ensinamento de Jesus, o Reino penetra o coração da sociedade, gerando solidariedade e empenho em favor da vida, sobretudo lá onde a vida é impedida de se manifestar na plenitude possível nesse mundo.

A Igreja tem no anuncio sua primordial tarefa. A credibilidade deste anúncio bem como de sua catequese lhe advém do testemunho que, na força do Espírito, ela oferece ao mundo. As DGAE dos últimos anos, em consonância com o ensinamento de João Paulo II(cf NMI 43) e com a eclesiologia do Concílio Vat. II, qualificam este testemunho como testemunho de comunhão. João Paulo II, falando na conclusão da Assembléia Extraordinária do Sínodo dos Bispos em 1985, em que foi avaliada a recepção do Concílio, ressaltou: “de modo particular neste Sínodo foi examinada a natureza da Igreja, enquanto é mistério e comunhão, isto é, koinonia” (n. 6). Em 1988, na Christifideles laici, exortação pós-sinodal sobre os fieis leigos – o sínodo se deu em 1987 -, João Paulo II retoma o ensinamento do Sínodo de 1985: “ A eclesiologia da comunhão é a idéia central e fundamental nos documentos do Concílio: “A Koinonia-comunhão, fundada na Sagrada Escritura, é tida em grande honra na Igreja antiga e nas Igrejas orientais até aos nossos dias. Por isso, muito se tem feito desde o Concílio Vaticano II para que a Igreja como comunhão seja entendida de maneira mais clara e traduzida de modo mais concreto na vida. Que significa a complexa palavra ‘comunhão’? Trata-se fundamentalmente de comunhão com Deus por Jesus Cristo no Espírito Santo”(n. 19). Esse testemunho de comunhão se revela na vida interna da comunidade cristã quando esta busca de fato viver o mandamento novo de Jesus e transborda para fora através do diálogo com o mundo – pessoas, grupos religiosos e culturas – e através do serviço à sociedade, sobretudo aos pobres de todos os tipos e  enfermos. “A Igreja no Brasil sabe que ‘nossos povos não querem andar pelas sombras da morte. Têm sede de vida e felicidade em Cristo’.

Por isso, proclama com vigor que ‘as condições de vida de muitos abandonados, excluídos e ignorados em sua miséria e dor, contradizem o projeto do pai e desafiam os discípulos missionários a maior compromisso a favor da cultura da vida’ ”. Nessa linha há três formas de testemunhar o evangelho pelo serviço: a) participando das pastorais sociais; b) atuando no espaço profissional  que ocupa, como fermento  de um mundo novo; c) participando da vida política da sociedade. Aqui emerge forte a urgência de uma catequese permanente na qual o confronto com os desafios da vida em sociedade seja sustentado por uma mística explicitamente evangélica  e iluminada pela Palavra de Deus em suas exigências sociais tais como são explicitadas na Doutrina Social da Igreja( DGAE, n. 120). A formação dos presbíteros e dos diáconos deve torná-los suficientemente preparados para oferecer aos fieis leigos a orientação espiritual e pastoral que os apóie em sua missão no mundo. Os próprios fieis leigos devem se organizar de forma a poderem, unidos, enfrentar os desafios que a realidade sócio-cultural coloca hoje  para a fé cristã e para a vivência da Caridade – Caritas in Veritate – no mundo. Somente uma Igreja, inserida no mundo como manifestação da misericórdia de Deus, poderá anunciar e ensinar com aquela autoridade que a multidão reconhecia em Jesus de Nazaré.