Entrevista com o seminarista João Frota: ?A minha vida agora é o sacerdócio?

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Ele era um jovem cristão que se preparava para se lançar na vida profissional. Até que o chamado do Pai mudou os seus planos.
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PASCOM

Alegria, paz interior e esperança. É assim que João Frota Melo, de 28 anos, define os seus sentimentos na nova vida que abraçou no seminário. Residente na Cidade dos Funcionários há 22 anos, ele fez a 1ª Eucaristia e se crismou na Paróquia da Glória, engajando-se em seguida nos trabalhos pastorais. Mas Deus tinha um propósito maior para a sua vida. Neste mês de agosto, que refletimos sobre as vocações, confira a entrevista com o jovem que largou tudo para seguir a Cristo.

Mensageiro: Como foi o chamado, o despertar para a vida sacerdotal?

João Frota: Comecei a servir nas capelas da Paróquia, como catequista. Eu tinha entre 21 e 22 anos. A minha primeira experiência real com Jesus aconteceu no Encontro de Jovens com Cristo (EJC) há sete anos. Eu já havia recebido os sacramentos, tive um início de caminhada com Deus na crisma, mas a primeira experiência realmente aconteceu no EJC. Depois eu fui me engajando na Paróquia, na Pastoral da Crisma, ajudando na secretaria das capelas, na Pastoral da Criança, na Liturgia… Em 2006 eu dei uma pausa para me preparar mais para o lado profissional. Minha graduação é em mecatrônica industrial, atualmente pelo IFCE, antigo CEFET, e eu estava com a pretensão de fazer uma bolsa de mestrado e doutorado no Japão, por seis anos. Eu estava terminando cursos de inglês e japonês, dando prosseguimento na faculdade para conseguir essa bolsa, que tinha a parceria da Universidade de Tokio com o Instituto Federal aqui no Ceará. Eram dois anos de mestrado e quatro anos de doutorado. Quando eu retornasse a Fortaleza, já ingressaria no corpo docente do Instituto Federal. Era essa a ideia do projeto de pesquisa. Em 2008 eu fiz o primeiro retiro do EJC da Paróquia. Eu estava muito afastado e já sentia uma vontade de voltar. Nesse retiro Deus se apresentou para mim pela primeira vez num irmão, um colega que estava lá junto comigo. Eu não havia partilhado com ninguém aquela minha ânsia de Deus e o meu amigo me disse: “Deus está me dizendo que você precisa voltar à Casa do Pai”. Então juntou a minha ânsia com aquela confirmação. Então eu deixei o meu currículo na Paróquia para ser catequista de crisma, pois eu sabia que iriam abrir novas turmas e eu havia feito cursos. Fui chamado e retomei o serviço como catequista em 2009. Fiquei numa turma com outra catequista que estava começando, a Laís (ela era coordenadora da Pastoral Vocacional da Paróquia). A gente estava sempre conversando e ela me deu muito apoio e instrução no lado espiritual, esse contato mais profundo com Jesus, principalmente com Jesus no Santíssimo. No final de outubro realizamos um retiro de um dia com a nossa turma, de 22 crismandos. Nós formos para o colégio Dom Lustosa e eu passei o dia fazendo questionamentos na formação, que era sobre adoração ao santíssimo. Eu fazia muitas perguntas porque eu não tinha essa experiência. Na parte da tarde aconteceu a adoração ao Santíssimo e, durante a adoração, Deus falou pela minha voz: “eu quero que você seja padre”. Nunca havia passado pela minha cabeça o sacerdócio. Eu estava me preparando para trabalhar com robótica por seis anos, depois voltar e trazer o conhecimento aqui para o Ceará. Pensei, claro, em fazer teologia, porque eu achava muito importante a pessoa ter um aprofundamento maior sobre Deus, mas nunca ser padre, nem mesmo diácono. Então eu fui pego de surpresa. Antes, nas minhas orações, eu rezava muito para que Deus falasse comigo de uma forma muito direta. E ele foi diretíssimo: “Eu quero que você seja padre”. Eu tinha 26 anos na época. O meu pensamento foi: “não dá, eu estou quase tirando passaporte para ir para o Japão…”

E como foi essa tomada de decisão?


Primeiro ficou a dúvida e eu deixei o assunto um pouco adormecido. Mas em dezembro, durante o Ágape, na Paróquia (que são três dias de oração com o Santíssimo), Ele me chamou novamente: “eu quero que você seja padre”. Eu pensei: “não, isso não é pra mim”. E continuei com meus planos. No final de janeiro de 20120 nós fizemos o encontrão com os crismandos, reunindo todas as turmas, no seminário de Teologia, no Castelão. Eu nunca havia entrado em um seminário. Lá não teve adoração ao Santíssimo, mas durante a celebração eucarística Ele novamente me chamou, depois que eu comunguei: “eu quero que você seja padre”. Aí eu já fiquei muito balançado. E comecei a sentir um vazio, uma desarmonia, como se estivesse faltando alguma coisa. Eu estava profissionalmente encaminhado, trabalhando, juntando dinheiro, com um relacionamento muito bom com minha família e amigos, namorando, mas eu me sentia muito incompleto. Quando chegou a Semana Santa, o padre Francisco no deu uma autorização para fazermos uma adoração ao Santíssimo na sexta-feira santa, porque no outro fim de semana nós estaríamos no retiro da crisma, encerrando a turma e preparando os crismandos já para o sacramento. E na adoração, novamente Ele me veio: “eu quero que você seja padre”. Desde esse dia até o retiro que aconteceu uma semana depois ficou uma angústia. O sentimento de vazio virou uma angústia. Eu fui para o retiro muito angustiado, muito cansado. Eu passei o retiro todo com falta de ar, muito emocionado. Quem foi pregar o retiro foi o padre Rafhael Maciel, que é da Pastoral Vocacional da Arquidiocese. Eu só soube quando o padre Francisco o apresentou aos catequistas e crismandos. E eu já estava chorando muito, muito fragilizado emocionalmente, e na adoração Ele falou novamente: “eu quero que você seja padre”. Ele falava diretamente para mim pela minha voz, como se eu falasse comigo mesmo. Ele disse: “eu quero que você seja padre. Você não está vendo que isso não é para você?” E dessa vez eu respondi: “Senhor, tudo bem. Mas eu preciso que o Senhor trabalhe o meu coração e a minha mente, porque eles não estão aceitando”. “Pois vá falar logo com ele” (o padre Rafhael). Essa foi a conversa que eu tive com Deus. Peguei a fila para a confissão e conversei com o padre Rafhael. Ele gostou muito da notícia, disse que eu procurasse o padre Francisco e viesse para as reuniões que acontecem uma vez por mês da Pastoral Vocacional da Arquidiocese, lá no Seminário Propedêutico, que fica no Henrique Jorge. Na outra semana procurei logo o padre Francisco. Ele teve uma boa surpresa. Ele não esperava, nem eu esperava isso. Na época o padre Josieldo, que era o vigário paroquial, era o responsável a nível regional pelas vocações. E o padre Francisco me encaminhou para ser acompanhado pelo padre Josieldo. Nós começamos a nos reunir e ele me dava orientações sobre a minha vocação. E a Laís foi a minha diretora espiritual leiga. Nessa época eu estava numa empolgação tão grande que até saí até do trabalho e me desliguei quase um semestre da faculdade. Eu comecei a ir à missa todos os dias e estar mais presente nas atividades pastorais (não apenas no meu período como catequista). Eu comecei a notar, apesar desse corre corre, que eu tinha que fazer mais. Ser cristão não era só aquilo. Tinha a vida paroquial e as atividades espirituais. Fazia estudo bíblico, muita Lexio Divina, e sempre tinha que apresentar o resultado, o comentário, para saber se o que eu estava rezando realmente condizia com o chamado vocacional. Será que é mesmo um chamado vocacional? Tem uma obra de Deus nisso? Eu fui amadurecendo todas essas questões. Quando chegamos em setembro de 2010, eu já tinha sido chamado para fazer um acompanhamento psicológico, porque para entrar no seminário você precisa fazer uma psicodiagnose. Durante a formação no seminário, da Pastoral Vocacional, veio uma questão muito forte a respeito dos seus “maiores sonhos”. O padre não colocou esse questionamento, mas eu pensei: será que vou poder realizar meus maiores sonhos como padre? Por exemplo, ir para o Japão é um dos meus maiores sonhos. Não como um engenheiro robótico numa universidade de Tokyo, mas conhecer o povo, a cultura. E eu posso fazer isso como padre. Teve outro sonho que me pareceu difícil realizar: morar só. Foi algo que sempre quis. Eu estava me preparando para ir para fora e eu tinha muitos trabalhos, era diretor administrativo de uma ONG aqui de Fortaleza, tinha começado uma nova turma de crisma, então eu tinha um sentimento de que se eu entrasse agora no seminário seria como se fosse uma fuga, eu ia deixar muita coisa solta, em aberto. Então eu pedi para o padre Rafhael para passar mais um ano no vocacional. Nesse período eu me mudei. Com o dinheiro que eu tinha eu aluguei um apartamento, comprei móveis, eletrodomésticos. Eu queria saber se morando sozinho eu era realmente a mesma pessoa que vivia com os pais, que servia na igreja, se ser padre era a minha vocação mesmo. Era a terceira semana de setembro e logo em outubro eu estava no apartamento. E então continuei os encontros vocacionais, o acompanhamento com o padre Josieldo, retomei a faculdade… E 2011 foi o ano do equilíbrio. Aquela ânsia e aquela paixão se transformaram realmente em amor. Mas foi muito puxado. A vida mais difícil é a do vocacionado, porque ele não está ainda no seminário e não está no mundo, ele tem que atender aos dois. Mas foi um ano maravilhoso. Eu consegui ir me desligando de todas as coisas, todas as tarefas, cancelar a bolsa, sair da ONG, colocar outra pessoa capaz para dar continuidade, tudo foi entrando nos eixos. Não teve aquele sentimento de fuga nem de dizer: ah, virem-se! Eu sempre fui muito responsável e a vida sozinho me deu a certeza de que aquela pessoa que eu era na igreja, no trabalho, na faculdade, com os meus pais, era a mesma pessoa sozinho. Eu precisava muito saber disso. Seis meses depois eu tinha a convicção de que a vida que eu tinha antes estava morta e que a minha vida agora era o sacerdócio. E aí veio uma paz espiritual, apesar dos problemas e dificuldades. Tem uma música da irmã Kelly Patrícia que diz que mesmo quando se espera o sol e vem a chuva, a alma que está junto a Deus não se abala. Então eu tinha um sentimento de paz muito grande. A minha proposta era passar um ano morando só; quando chegasse em setembro eu voltaria para a casa dos meus pais. Eu morei ainda três meses com eles antes de entrar no seminário e foi uma espécie de readaptação. Isso foi bom para a vida inicial no seminário, porque eu morava só, então era dono de mim, responsável por mim mesmo, e tive que voltar a morar sob a tutela dos meus pais. 2011 também me serviu para me engajar fortemente na Paróquia, então as pessoas já me conheciam quando dizia que era vocacionado e possivelmente seria seminarista. As pessoas me receberam muito bem. Eu me aproximei ainda mais dos padres, principalmente o padre Francisco, então eu consegui entrar no seminário com tudo muito equilibrado.

A sua família o influenciou de alguma forma?


Na verdade, essa decisão foi um choque para a minha família. O termo que eles usaram quando eu dei a notícia foi “decepção”. Mas eu entendo: eu fui criado para ser um engenheiro bem sucedido. Alguns amigos meus também acharam loucura. Mas eu entrei no seminário no dia 1º de fevereiro desse ano com uma alegria, uma esperança, uma ânsia e uma paz interior muito grande. E hoje, praticamente seis meses depois, o sentimento não mudou. A vida é muito boa no seminário. Ela é preenchida de atividades e tudo tem o seu horário. Mas não é a vida militar que eu imaginava, que eu via nos filmes antigos. É uma vida muito fraterna, uma verdadeira experiência comunitária. Hoje eu vivo com pessoas que antes eram estranhas para mim e hoje são como uma família. Tenho padres que para mim são uma referência. Os nossos irmãos seminaristas são como irmãos. E há aqueles que além de serem irmãos são amigos. É uma vida em família, mas que tem as suas cobranças. Temos as nossas obrigações, as tarefas a cumprir, mas é uma vida muito boa. A minha preocupação agora é com a minha formação. É um contexto muito diferente do que eu vivia, que eu tinha que trabalhar para me sustentar e tudo eu tinha que fazer com o meu dinheiro. Agora, não, dependemos das pessoas, da comunidade. O dízimo que os fiéis devolvem na Paróquia está ajudando na minha formação como seminarista. Eu ainda sou dizimista da Paróquia da Glória, então o que eu ainda consigo dar com o meu dízimo ainda retorna para mim, na vida no seminário. É muito bonito isso.

E como será a caminhada daqui para frente?


Eu não sou engenheiro ainda; tive que trancar o curso porque no Propedêutico não é permitido fazer nenhuma atividade fora do seminário. Mas falta apenas apresentar a monografia e colar grau. Como a gente passou por um longo período de greve nas universidades públicas, e eu não consegui me formar. Então quando eu for para a faculdade de Filosofia poderei concluir… Eu estou no primeiro ano do Propedêutico, e como na engenharia não tinha nenhuma cadeira que aproveitasse, eu vou fazer a formação completa: é um ano de Propedêutico, depois três anos de Filosofia e quatro anos de Teologia. Então serão oito anos de estudo, mais seis meses de Diaconato para então eu me ordenar. Então faltam oito anos e meio para eu estar celebrando missas (risos). É um tempinho bom; não quis começar antes para não pular etapas. Dói um pouquinho saber que hoje eu tenho 28 anos e vou ser padre com 37, enquanto colegas meus já serão padres com 28 (uma grande diferença de idade). Mas do jeito que eu penso, dói e passa. A experiência, a convivência, compensa muito. E nunca é tarde para Deus, pelo contrário. Eu acho que eu tive uma experiência diferente, dentro da sociedade, estudando, trabalhando, namorando, me divertindo, então eu entrei no seminário com a convicção que eu vivi tudo o que eu poderia ter vivido. Eu não sei o dia de amanhã, mas eu posso dizer hoje que eu não tenho dúvida nenhuma. Eu abri o coração para Jesus naquele retiro, na adoração. Eu disse: “o Senhor mude a minha mente, mude o meu coração, e ele mudou”.

Que mensagem você deixaria para os jovens que se sentem chamados para esta vocação?


A mensagem que eu deixo é: você precisa procurar ter uma experiência com Jesus, conversar com Ele. Para mim, encontrar Jesus na adoração ao Santíssimo foi a diferença. Mesmo servindo nas atividades pastorais, a experiência com Jesus na Eucaristia é única. É preciso perguntar: “o que o Senhor quer de mim?” Porque às vezes o meu sonho não condiz com o plano de Deus. Mesmo que você ache que o caminho que você está trilhando é o correto. Mas será mesmo? Eu só consigo ver o hoje, mas Deus vê tudo. Então procure Jesus na Eucaristia e abra seu coração. Mesmo que seja difícil no começo, reze. É preciso ter um relacionamento íntimo com ele. Deixe que Ele fale. A Igreja usa a Lexio Divina, que é a leitura orante da Bíblia, como instrumento tradicional – e ele é muito eficaz. O meu aprofundamento vocacional foi todo com a leitura orante dos evangelhos, orando, rezando e fazendo comentários, respondendo àquelas perguntas, criando um diário espiritual. Foi assim que eu consegui ter a certeza de que Jesus estava me respondendo, com a própria Bíblia. Então o conselho que eu dou é: tenha uma experiência com a Eucaristia, busque não simplesmente comungar, mas conversar com Deus, na missa e fora dela, e junte isso com a experiência bíblica. Mesmo que você não tenha muito conhecimento da Bíblica, comece. Eu comecei praticamente do zero. Todos os dias eu rezava em cima de um capítulo do evangelho, sempre buscando uma resposta vocacional. E procure o engajamento na Igreja, num serviço no qual você consiga se doar, evangelizar, porque os dons do Espírito Santo só afloram desse jeito. E aí você consegue essa intimidade com Deus.