Lei divina não é escravidão, mas dom de graça, afirma Papa

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O Papa Bento XVI falou sobre o Salmo 119 (118) na Catequese desta quarta-feira, 9

“A Lei divina não é jugo pesado de escravidão, mas dom de graça que nos faz livres e leva à felicidade”, salientou o Papa. Este Salmo é um imponente e solene canto sobre a Torá do Senhor, isto é, sobre a sua Lei, termo que, na sua acepção mais ampla e completa, é compreendido como ensinamento, instrução, diretiva de vida. A Lei do Senhor, a sua Palavra, é o centro da vida do orante:

“A fidelidade do Salmista nasce da escuta da Palavra, do guardar no íntimo, meditando-a e amando-a, exatamente como Maria. […] É ainda a Virgem Maria que leva ao cumprimento a perfeita figura do crente descrita pelo Salmista. É Ela, de fato, a verdadeira ‘bem-aventurada’. […] Certamente, Maria é bem-aventurada porque o seu ventre carregou o Salvador, mas, sobretudo, porque acolheu o anúncio de Deus, porque foi atenta e amorosa guardiã da sua Palavra”, ressaltou.

Bento XVI explicou que este é um Salmo muito particular, único no seu gênero. “Antes de tudo, o é pela sua extensão: é composto, de fato, por 176 versículos divididos em 22 estrofes com oito versículos cada”. Da mesma forma, o texto é permeado de amor pela Palavra de Deus, “que celebra a beleza, a força salvífica, a capacidade de dar alegria e vida”.

“A lei divina, objeto do amor apaixonado do Salmista e de cada crente, é fonte de vida. O desejo de compreendê-la, observá-la, orientar a ela todo o próprio ser é a característica do homem justo e fiel ao Senhor”, ensina o Papa.

A Lei de Deus, enquanto centro da existência, requer escuta do coração, feita de obediência não servil, mas filial, confiante, consciente.

“A escuta da palavra é encontro pessoal com o Senhor da vida, um encontro que deve traduzir-se em escolhas concretas e tornar-se caminho e seguimento. O cumprimento da Lei é seguir Jesus, andar sobre a estrada de Jesus, na companhia de Jesus”.

O dom do Celibato

O Papa deteve-se de modo particular no versículo 57, que indica: “Minha parte, Senhor, eu o declaro, é guardar as vossas palavras”.

O Bispo explica que o termo “parte” diz respeito ao evento da repartição da terra prometida entre as tribos de Israel, quando aos Levitas não é assinalada alguma porção de território, porque a sua “parte” era o Senhor mesmo. “Os sacerdotes, pertencentes à tribo de Levi, não podem  ser proprietários de terras no País que Deus dava por herança ao seu povo, levando a cumprimento a promessa feita por Abraão (cf. Gen 12, 1-7). […] Os Levitas, mediadores do sagrado e da bênção divina, não podem possuir, como os outros judeus, esse sinal externo de bênção e essa fonte de subsistência. Inteiramente doados ao Senhor, devem viver d’Ele somente, abandonados ao seu amor providente e à generosidade dos irmãos, sem ter herança, porque Deus é a sua parte da herança, Deus é a sua terra, que lhes faz viver em plenitude”.

No Salmo, o orante ressalta: “A minha parte é o Senhor”. “O seu amor por Deus e pela Sua Palavra leva-o à escolha radical de ter o Senhor como único bem, e também de manter as suas palavras como dom precioso, mais precioso do que toda a herança e toda a posse de terra. […] Esta é a felicidade do salmista: para ele, como os levitas, foi dado como parte da herança a Palavra de Deus”.

“Queridos irmãos e irmãs, estes versículos são de grande importância também hoje para todos nós. Antes de tudo, para os sacerdotes, chamados a viver somente do Senhor e da sua Palavra, sem outras seguranças, tendo a Ele como único bem e única fonte de verdadeira vida. Nessa luz, compreende-se a livre escolha do celibato para o Reino dos céus, a ser redescoberto em sua beleza e força”, pediu.

A audiência

O encontro do Santo Padre com os cerca de 20 mil fiéis reunidos na Praça de São Pedro, no Vaticano, aconteceu às 10h30 (horário de Roma – 7h30 no horário de Brasília). A reflexão faz parte da “Escola de Oração”, iniciada pelo Papa na Catequese de 4 de maio.

Ao final da audiência, o Papa lançou um apelo em prol das vítimas dos desastres naturais na América Central e Sudeste Asiático. Bento XVI também recebeu a cidadania honorária de Natz-Schabs/Naz-Sciaves, província autônoma de Bolzano (Itália).

“Na fração Raas/Rasa da localidade do Sul-Tirolo nasceram Elisabeth Maria Tauber (1832) e Maria Tauber-Peintner (1855), respectivamente, bisavó e avó maternas de Joseph Ratzinger. À cerimônia, participou uma delegação da Cidade, guiada pelo prefeito, Peter Gasser”, indica o Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé.

Na saudação aos fiéis de língua portuguesa, o Papa salientou:

“Com cordial afeto, saúdo todos os peregrinos de língua portuguesa, em especial os brasileiros da paróquia de Nossa Senhora da Glória. Que o Senhor vos encha o coração de um grande amor pela sua Palavra, para poderdes colocar a sua vontade no centro da vossa vida, como a Virgem Maria. Ela que acolheu e gerou a Palavra divina, seja o vosso guia e conforto, o astro luminoso que aponta o caminho da felicidade. Em penhor do muito bem que vos quero, dou-vos a minha Bênção Apostólica”.