Padre Zezinho: Na contramão do imediatismo

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Para Padre Zezinho, 45 anos de sacerdócio, o imediatismo do hoje impede o amadurecimento. Não só da fé. É preciso pensar o depois, ainda nesta vida

Quando ele descobriu que a música era o “chantili” da catequese na Igreja, Fábio de Melo, Marcelo Rossi e Reginaldo Manzotti não tinham sequer nascido. Sem “condenar” os religiosos midiáticos, Padre Zezinho explica que escolheu um outro projeto de vida, tipo mangueira: “leva dez ou 15 anos para dar fruto, mas depois dá manga por muito tempo”. E já são 45 anos, longe de holofotes, como padre-cantor, título que recebeu na década de 1980 quando ganhou o Brasil e o mundo, mesmo dispensando convites da Rede Globo. “Não é o tipo de programa que serve de cenário para minha canção”, justifica, referindo-se a Faustão e companhia, na TV aberta.

 

Sua fala, sempre articulada e embasada em documentos da Igreja Católica, critica o imediatismo do mundo moderno que busca determinar quando Deus fará o milagre, define quem é o artista da vez, desestimula a leitura, tira a autoridade dos pais e escraviza através do “www”.

Padre Zezinho tem uma formação musical eclética, iniciada com o pai violeiro e refinada em suas viagens pelo mundo, inclusive na Espanha, onde esteve durante a Ditadura Militar no Brasil. A preocupação com a vida em comunidade e com a política acompanham suas pregações. “Eu falo de Deus, falo do próximo e falo do ‘eu’ no meio dos outros. Tenho que viver para o outro, porque se viver para mim é uma discrepância gigantesca”. Na conversa a seguir, ele defende uma maior inserção dos católicos no Parlamento, assim como fazem os evangélicos, e lembra que sempre foi difícil ser um bom cristão. Mas é preciso persistência.

 
O POVO – São 45 anos como sacerdote e comunicador. Houve um momento específico, claro, de seu chamado para ser padre?

Pe. Zezinho – Queria ser padre desde os nove anos. Meu pai era paralítico e quem dava assistência à minha família, pobre, eram os padres do instituto de teologia a 100 metros da nossa casa. Acostumei-me como coroinha e vendo que eles cuidavam dos pobres e da vila de operários onde eu morava. Então, nasceu aos poucos a ideia de fazer o que eles faziam: cuidar de pobre e trabalhar em comunidades carentes.

 
OP – A paralisia de seu pai foi um acidente?

Pe. Zezinho – Meu pai era tropeiro, conduzia gado de Minas para São Paulo, e também media terras. Um dia sofreu um acidente, o cavalo passou por cima dele, afetou a espinha. A paralisia foi progressiva, mas ele conseguia mexer com a mão. Era violeiro. Por um lado, (o acidente) foi providencial, porque eu convivi com ele e com suas histórias, e ao mesmo tempo eu vi a dor e o sofrimento que ele enfrentou com muita serenidade. Mais tarde minha mãe veio a amputar as duas pernas devido a diabetes. Eu vivi numa família onde se ensinava que ter problemas na vida não é o mesmo que ter uma vida infeliz. A nossa foi feliz apesar dos problemas. Meu pai morreu quando eu fiz 11 anos. No comecinho de 1952. E dali por diante eu estava por conta dos padres que cuidavam da nossa família e foram eles que conseguiram benfeitores para pagar os meus estudos. E hoje eu retribuo para a minha congregação tudo o que ela fez por mim. E, certamente, não existiria o Padre Zezinho se uma congregação não tivesse acreditado nesse menino pobre.

 
OP – E como foi recebida pelos seus pais a decisão de seguir a vida religiosa?

Pe. Zezinho – Meu irmão mais velho foi primeiro para o seminário. Desistiu. Minha mãe era costureira e cozinheira dos padres, muito devota do Coração de Jesus. Recebeu com muita alegria (a decisão). Ela foi sábia dizendo: “olha, o teu irmão foi mas não continuou. Você veja o que quer”. Eu disse: “vou arriscar”. Fui e continuei.

OP – E o gosto musical, o senhor atribui a seu pai?

Pe. Zezinho – Sim. Minha família era muito musical. De vez em quando os tios vinham visitar, contavam causos e cantavam toada mineira, moda de viola. No seminário, recebi a influência da música italiana e da música alemã. Eu já tinha a música mineira no sangue, a paulista, porque morávamos em Taubaté, para onde fui com dois anos de idade, a música interiorana tipo Tonico e Tinoco, e mais tarde a influência estrangeira, as músicas populares da Itália e da Alemanha. Depois fui para os EUA e morei numa região de blues, era muito comum o country. Também me influenciou. E depois tive a chance de estudar na Europa. Lá, bebi da música grega, da portuguesa e me interessei muito pela música russa. Isso tudo foi formando em mim um conceito musical. As pessoas dizem que minha música serve em qualquer país exatamente por essas influências.

 
OP – Quanto tempo foi essa sua passagem no Exterior?

Pe. Zezinho – Quatro anos nos Estados Unidos e um na Itália. Depois viajei muito. Passava três meses na Argentina, no México, na Espanha. Logo nos meus primeiros dez anos de padre.

 
OP – E como foi ter de sair do Brasil por causa da Ditadura?

Pe. Zezinho – Eu fui ameaçado várias vezes, tive que me mudar para a Espanha e fiquei lá sete meses. Por ter falado naquele tempo o que falo agora. Uma vez ganhei ordem de prisão em Belo Horizonte porque disse que estava com saudade do tempo em que a gente podia votar e que eu queria uma juventude que se rebelasse e lutasse pelos direitos de ser cidadã, e não uma juventude revoltada. Porque revoltada vai e destrói tudo. Dom Paulo (Evaristo Arns) tomou minha defesa junto de Dom Eugênio, do Rio de Janeiro, e não fui preso. Mas logo depois fui para a Espanha. Meus superiores pediram para eu ir para lá porque estava marcado. Na mesma época prenderam Frei Betto, a repressão estava violenta. Eu não sofri nem um décimo da perseguição que outros sofreram.

 
OP – Por quê?

Pe. Zezinho – Alguns pregavam abertamente uma postura de esquerda e eu pregava uma postura social democrática. Meu modelo não era e não é Cuba. E também não era e não é os Estados Unidos. O capitalismo massacra as pessoas com seu poder de compra. E no Congresso massacra com seu poder de compra de deputados. Não somos ainda uma República que discute. Nos deixamos levar pela pressão do momento e pela vantagem. O Brasil vive isso há muito tempo: “vá com o vencedor”, “fique com o que está no primeiro lugar e aí será vitorioso”. Acho que é vitorioso quem tem opinião e corre todos os riscos para dizer o que pensa.

 
OP – Para o senhor, hoje, há menos interesse dos jovens em seguir a vida religiosa?

Pe. Zezinho – Não aumentou, nem diminuiu. A grande pergunta é: e depois?. Temos que perguntar se os novos movimentos que trabalham muito a sensibilidade e o sentimento, mais que o conhecimento e a razão, vão durar muito. A catequese deve ser durável e progressiva. É nessa tecla que eu bato. É preciso colocar ideias perenes e não canonizar só o momento. Tem que haver uma base cultural sólida para se trabalhar com a juventude e para fazer música religiosa também.

OP – E os movimentos hoje seguem que linha?

Pe. Zezinho – Trabalham muito o marketing. E o marketing, todo mundo sabe, é para consumo. Faz, terminou, faz outro, faz outro. Na cultura, as coisas que tinham conteúdo sólido duraram. Até hoje todo mundo canta “não há, ó gente, oh não, luar como esse do sertão”. E um samba muito simples como “a estrela Dalva no céu desponta” (cantarola). É porque a melodia é durável, o conteúdo é durável e fácil de guardar.

 
OP – Embora o senhor faça centenas de shows, o senhor não está na TV. Isso é uma escolha?
Pe. Zezinho – Se você vai à praia para se bronzear, tem que ficar pouco tempo debaixo do sol. A moça que fica de seis até 18 horas sai de lá com bolhas, e não bronzeada. Os holofotes funcionam como o sol. Se você se expõe demais, queima a sua imagem. Então, eu não permito que ponham meu rosto na capa de livro. A mensagem tem que ser mais forte que o mensageiro.

OP – Mais especificamente na religião…

Pe. Zezinho – A minha mensagem é bíblica e é da Igreja. Não coloco o meu rosto no livro porque tudo o que estou dizendo ali aprendi em algum lugar da Igreja. Ponho o meu nome como alguém que aprendeu, mas a centralidade do meu trabalho não está no meu rosto. Uma vez eu pus quando era novinho. Depois refleti e vi que nunca mais. Escolho muito cuidadosamente os programas de auditório que vou, porque não me vejo cantando Oração pela família no Faustão com as moças vestidas daquela maneira atrás. Não me vejo cantando uma canção de espiritualidade no Gugu e também não me vejo cantando uma canção de família no Ratinho. Não é o tipo de programa que serve de cenário para a minha canção.

 
OP – E a audiência?

Pe. Zezinho – A audiência não justifica ir à televisão. Se alguém descobrir o meu livro, a minha canção, e contar para o outro, o efeito é muito maior. E depois de 45 anos cantando e indo pouquíssimo à TV, apesar disso, posso dizer que sou conhecido por pelo menos 100 milhões de brasileiros. Comunidades católicas, hospitais, creches, asilos, paróquias e colégios são suficientes para divulgar uma mensagem católica. Acredito plenamente que se uma mensagem é forte alguém conta para o outro. Pode dar certo ou não, mas é uma escolha que fiz. Com o excesso você corre o risco de cansar muito mais rapidamente o público e de se cansar. Fica parecendo a formiga que, ao invés de levar um pedaço da folha, leva a folha inteira. Não vai chegar ao formigueiro.

 
OP – E os padres que fazem isso?

Pe. Zezinho – É que eu fiz um projeto tipo mangueira. Leva dez ou 15 anos, mas depois dá manga por muito tempo. E eles podem ter feito um projeto mais urgente. Quem quiser se tornar conhecido urgentemente deve fazer um contrato com a Globo ou com a Sony, e em dois anos será conhecido no País inteiro, porque eles providenciarão que você vá a todos os programas. A mesma oferta me foi feita três vezes e eu disse não. Eu não saio das Paulinas e também não deixo a minha congregação. Continuarei sacerdote dehoniano. Se um dia gostarem de alguma coisa minha, façam um contrato com as Paulinas. Quem é meu amigo é amigo para sempre. Eu não troco por questão de maior público, mas se alguém fizer isso eu não condeno. Depende do prazo que você se dá.

 
OP – A evangelização através da música é mais eficaz?

Pe. Zezinho – Nós não podemos canonizar a música. O bolo sem chantili é gostoso do mesmo jeito. Catequese sem música é muito boa, missa sem música é maravilhosa. Agora, a música é um chantili que acrescenta algum sabor especial ao bolo da vida e ela nunca pode ser mais importante do que a palavra falada ou escrita. Fui ordenado para pregar a palavra de Deus e em nenhum momento o bispo me mandou cantar. A canção é algo que veio depois, até enfeita, mas não pode ser a razão central do meu sacerdócio. Muitas vezes aconteceu de eu perder grandes oportunidades porque me neguei a ir só cantar.

 
OP – Uma de suas músicas mais marcantes é Oração pela família. Como está família hoje?
Pe. Zezinho – Desde que a humanidade escolheu os números e a vendagem como objetivos principais da comunicação ficaram sacrificadas a qualidade e a família. Os pais perderam a autoridade. A Igreja, o Estado e a escola também. Os pais, que vivem todos os dias com os filhos, às vezes não conseguem dar uma mensagem para eles. Mas os filhos estão abertos à internet e à mídia. Quem vem de fora tem mais influência sobre eles do que quem convive. Os pais deviam ser um semáforo que fica mais tempo no verde, mas quando é amarelo é amarelo e quando é vermelho é vermelho mesmo. Têm que aprender a proibir o suficiente e permitir muito mais, porém para isso precisam oferecer um amarelo que é um ‘prepare-se’, reflexão. Isso tem faltado. Vivemos numa sociedade voltada para o indivíduo, superficial demais, imediatista demais e que se entregou totalmente ao marketing. Hoje acentuaram-se demais o efêmero, o emotivo, e esquecemos de ensinar o Brasil a pensar. Políticos votam às vezes sem pensar, o povo vota nos políticos sem pensar. As pessoas mudam de igreja sem pensar. Canonizou-se a novidade esquecendo da qualidade e do conteúdo. Toda vez que você se deixa levar pela onda do momento você é surfista, não é um catequista.

OP – Nesse cenário, o senhor é otimista ou pessimista?

Pe. Zezinho – Sempre foi difícil ser um bom cristão, ser um bom católico, e sempre foi fácil aderir à ideia do momento. Temos que ter a capacidade de pregar com nexo e perspectiva. Pregar o Cristo da fé e o Cristo histórico. Ninguém consegue fazer isso se não ler muito. E nós somos uma sociedade carente de livros, as igrejas também são. A Igreja fala muito bonito, mas não chega ao povo. Chega a parte que o pregador gosta de mostrar, mas os jovens continuam sem saber o que a Igreja disse, o que disse João Paulo II.

OP – Seria uma falha na formação dos padres?

Pe. Zezinho – Acho que isso é imediatismo. Nós queremos resultado. Não existem as igrejas que pregam o Cristo com resultado? Não há até a hora para o milagre? Domingo às três da tarde vá lá que vai acontecer milagre. Isso é imediatismo. Outros oferecem missa de cura e libertação. Por acaso as outras missas também não são de cura e libertação? Por que eu vou só naquele padre que diz que vai ter cura e libertação se a Igreja não permite que dê esses nomes para as missas? Toda missa é de cura e libertação. Deus é que vai decidir se cura e liberta alguém. É uma missa de pedido. Outros dizem: “faça por mim uma oração de poder”. Não conheço nenhuma. Só conheço oração de pedir. Quem tem poder é Deus. Vejo muita gente abençoando e dizendo: “que Deus possa te abençoar”. Por acaso Deus não pode? Então, que Deus te abençoe agora. Temos que ter palavras com maior precisão. Certas ideias entram na Igreja e ficam grudadas que nem cupim no pasto, não saem mais e são ideias erradas.

 
OP – O senhor acha que a compreensão entre as igrejas está mais próxima hoje?

Pe. Zezinho – É mais fácil dialogar com as igrejas históricas: luteranas, metodistas, batistas, adventistas. Já têm uma caminhada. É um pouco mais difícil com as neopentecostais pois elas acreditam e ensinam que elas é que são o novo da fé, que você está errado. O verdadeiro diálogo ecumênico é: “pode falar, eu vou concordar e vou discordar, mas quero ouvir você”. Hoje algumas igrejas não ouvem, só falam. Nós precisamos nos libertar de slogans e marketing perigosos, e fazer bom uso dos meios de comunicação sem nos escravizar a eles. Porque o “www” também escraviza, e a era digital é escravizante. Jesus diz que não devemos nos impressionar pela fé como espetáculo. O reino de Deus é como uma semente que está crescendo. Não estamos nos dando tempo para a fé amadurecer nos jovens. A maioria das igrejas está cometendo o pecado de queimar etapas. Há pregadores pensando que se pular para a próxima fase, não terminar a primeira, vão chegar longe.

 
OP – Como o senhor avalia a inserção dos grupos evangélicos em demandas políticas?

Pe. Zezinho – Nós devíamos fazer o mesmo. A Igreja Católica já fez muita política no passado e chegou aos parlamentos. Nós não devíamos desistir da política. Temos que preparar leigos e se possível até sacerdotes para representar o povo no parlamento. Sou a favor de fazer política. Eu não faço porque não tenho essa vocação, mas se alguém tem e o bispo permitir, acho que deve ir, pois é lá que se fazem as leis.

OP – Nos seus shows e nas suas pregações o senhor fala dessa questão eleitoral?

Pe. Zezinho – Minha pregação é profundamente religiosa e profundamente política. Não consigo imaginar falar com a multidão e não falar de política. Eu falo de Deus, falo do próximo e falo do eu no meio dos outros. Tento pregar contra a ideia do “eu demais” e “Deus de menos”. Mas falo de política abertamente, porque não é possível construir uma sociedade sem religião e sem política. Eu prego as duas.

 
Veja entrevista completa com Pe. Zezinho